Radiohead e o piano – um estudo

No mundialmente conhecido caso de Watergate, que levou à renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, na década de 70, havia um personagem chamado Garganta Profunda. Era uma fonte secreta que municiava os jornalistas do Washington Post na investigação do caso.

Uma de suas máximas, que ficou famosa, era “siga o dinheiro”, uma dica para os repórteres escavarem o lixo que cobria o Partido Republicano na época.

Pois o que tudo isso tem a ver com o Radiohead? É simples, meus amigos: se você quer entender a banda, e sua evolução artística e musical, eu digo: SIGA O PIANO!

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Sim, o piano.

Aquele instrumento clássico, criado no século 18 pelo italiano Bartolomeo Cristofori (Wikipédia é cultura). Aquele, que se popularizou pra valer somente no século passado, quando o blues e o rock passaram a se apropriar de sua sonoridade e versatilidade.

Fala aí: até hoje, é bem fácil associar a imagem do piano a um “instrumento de velho”. De gente sisuda. De gente séria. De gente que veste robe de seda, toma conhaque e fuma charuto no fim de um dia difícil no mundo dos negócios.

Claro, há muitas exceções, mas desafio alguém a olhar para um piano e se lembrar na mesma hora de uma balada, de uma festa na piscina, de farra, de alegria e diversão. Esse papel é da guitarra, da bateria, do set de DJ, da Beyoncé, do Chimbinha. E por aí vai.

Agora: você, meu caro fã de Radiohead, sabe me dizer, assim, de bate pronto, qual é a primeira música da banda em que o piano apareceu?

Eu dou a resposta para você: foi em Karma Police Creep (corrigido pelo amigo que comentou – mesmo assim, vou considerar apenas uma “coadjuvância”, simplesmente para não invalidar meu argumento no resto do texto, ehehehe). Sim, isso mesmo. Uma música do OK Computer, o TERCEIRO FUCKING DISCO da banda. É engraçado se dar conta disso, porque seu antecessor, o The Bends, é que sempre foi tachado como o álbum “acústico”, “orgânico” do Radiohead. E não tem uma nota sequer de piano. Nada – beleza, tem violão de sobra, mas essa é outra história.

E, pasmem: mesmo depois do advento do piano no Radiohead, estatisticamente falando, ele não aparece tanto assim não. Pelo menos até o Moon Shaped Pool, disco lançado neste ano, em que MAIS DA METADE das músicas têm piano (seis das 11). É um recorde.

Saquem a quantidade de músicas com piano em relação ao total de canções em cada disco:

  • Pablo Honey – 0/12
  • The Bends – 0/12
  • OK Computer – 2/12
  • Kid A – 3/11
  • Amnesiac – 4/11
  • I Might Be Wrong – 3/7
  • Hail to the Thief – 3/14
  • Com Lag – 1/10
  • In Rainbows – 2/10
  • In Rainbows 2 – 2/8
  • The King of Limbs – 1/8
  • A Moon Shaped Pool – 6/11
  • Singles (todos) – 4/45

Ou seja: o Radiohead tem 171 músicas gravadas (estou considerando registros oficiais, em estúdio ou ao vivo, desde que tenham sido lançados em álbuns ou singles). Dessas, o piano aparece em 31 (o cálculo é generoso, pois inclui algumas repetições – por exemplo, Morning Bell, que aparece em Kid A, Amnesiac e em I Might Be Wrong – em versões diferentes, mas todas com piano). É uma proporção de 18%. É pouco? Eu acho que sim. Simplesmente porque as músicas do Radiohead com piano são EXCEPCIONALMENTE BELAS. Discorda?

Pois supondo que a banda fizesse uma turnê só com suas músicas com piano, o show teria o seguinte setlist (em ordem cronológica, desconsiderando as repetições que citei acima):

  1. Karma Police
  2. Fitter Happier
  3. How I Made my Millions
  4. Everything in it’s Right Place
  5. Kid A
  6. Morning Bell
  7. Pyramid Song
  8. You and Whose Army?
  9. Life in a Glasshouse
  10. Cuttooth
  11. Sail to the Moon
  12. We Suck Young Blood
  13. A Punch Up at a Wedding
  14. Fog (Again) – Live
  15. Like Spinning Plates – Live
  16. All I Need
  17. Videotape
  18. MK1
  19. Down is the New Up
  20. Daily Mail
  21. Codex
  22. Spectre
  23. Daydreaming
  24. Decks Dark
  25. Glass Eyes
  26. The Numbers
  27. Tinker Tailor
  28. True Love Waits

Nada mal, né?

A aparição do piano no Radiohead pode ser dividida de três formas: piano como acompanhamento (a mais comum, da onde destaco Karma Police, Cuttooth e A Punch Up at a Wedding, entre muitas outras); piano como protagonista (Pyramid Song, Daily Mail, Videotape, True Love Waits, etc) e o piano surgindo no final de forma arrebatadora (esta última categoria tem apenas dois exemplos: You and Whose Army? e All I Need).

Também é preciso destacar que nem sempre é exatamente o piano, com seu som característico, que aparece. Em Everything in it’s Right Place, por exemplo, ele parece ter alguma distorção. Mas não tem como dizer que não é um piano aquilo ali. Diferentemente de outras músicas, como Treefingers, em que o instrumento usado é claramente um teclado, que cria novos sons, timbres e prolonga as notas (essas músicas não foram consideradas no estudo).

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Enfim, amigos.

Quando digo para “seguir o piano”, quero dizer que o uso do instrumento é o símbolo do amadurecimento da banda. Não o único. Mas um dos mais perceptíveis. Justamente o instrumento conhecido como “coisa antiga”. Sim, é isso mesmo. Curiosamente, o aumento do uso do piano pelo Radiohead coincide com a fase em que eles começaram a ser chamados de “difíceis”, “experimentais”, “cabeças”. Mas, também, de “gênios”…

Também é curioso que eu, um fã convicto de Radiohead, só tenha me dado conta disso agora. Será que é por que estou mais velho? Apreciando mais um instrumento à altura de meus cabelos grisalhos?

A primeira música de Kid A, disco que saiu só quatro anos depois do OK Computer, é justamente “Everything”, executada toda no piano (e com o sampler que faz aquelas coisas loucas na voz do Thom). Uma espécie de divisor de águas.

Ou você acha que é uma coincidência o fato do disco que tem mais músicas com piano ser também o mais recente? Aliás, dizem que o A Moon Shaped Pool pode ser o último disco do Radiohead. Faz todo sentido: o álbum termina com True Love Waits, uma música tocada em shows há algum tempo, bem conhecida dos fãs, mas que antes era executada no violão. E que no disco ganhou uma versão LINDA DE MORRER no… piano. E, ainda por cima, com DOIS pianos. É a única música do Radiohead que tem dois pianos. É como se o grupo dissesse: “ultrapassamos uma barreira, não tem como avançar desse ponto”.

É curioso pensar em porquê a banda demorou tanto para usar o piano. Pode ser porque o Thom Yorke não sabia tocar direito, e foi aprendendo, ganhando segurança para compor e executar as músicas no instrumento. Afinal, se você pode fazer uma Karma Police logo no primeiro disco de sua carreira, por que fazer somente no terceiro? Mas também pode ser que a banda tenha aprendido a usar a sonoridade do piano ao longo do tempo, até dominá-lo com completa e absoluta maestria. Ou pode ser que eles nunca nem pensaram nisso. Foram só fazendo o que deu na telha. Sei lá. Vindo do Radiohead, de qualquer forma, é difícil acreditar que qualquer movimento da trajetória do grupo não tenha sido minuciosamente elaborado.

Enfim, se você não gostou muito dos rumos que o Radiohead tomou depois do OK Computer, pode ficar mais tranquilo: a culpa não é sua. Também não é da banda. Muito menos dos críticos.

A culpa é do piano.

Grande abraço.

PS 1: Minha preferida? É essa aqui. Resume bem o que é o uso do piano no Radiohead: claro, audível, cheio de nuances e violento quando precisa. Gosto demais dessa música.

PS 2: Fiz uma playlist no Spotify só com as músicas do Radiohead com piano. Está logo abaixo. Infelizmente, não tem as duas músicas do In Rainbows 2, porque o disco não está disponível no Spotify. Ainda assim… enjoy!

 

Modest Mouse – Good News for People who Love Bad News

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Ouvir música alternativa é como romper um portal para outra dimensão.

Mas, calma lá: em primeiro lugar, o que é música “alternativa”?

Sempre enxerguei este conceito de duas formas: ou a música é alternativa em seu conteúdo, por assim dizer, ou em sua forma – ou, pela forma como é divulgada. Ou vendida.

Mas… não é tão simples assim. Vejamos, por exemplo, o Nirvana. Sua gênese é o que podemos chamar de alternativo na alma. Mas aí veio o sucesso (e nem vou discutir se foi só por Smells Like Teen Spirit ou não) e a banda de repente virou mainstream.

Também há aquelas que nasceram alternativas e continuaram (ou continuam) assim: Yo la Tengo, Pavement, Delgados, Grandaddy… Dá pra citar um monte. Mas, mesmo essas conseguiram um crescimento dentro de seu próprio nicho e, de uma forma ou de outra, têm um público que as mantém (ou mantiveram, mesmo que por um tempo).

O que tento dizer é que o conhecido como “alternativo” pode ser mainstream para mim. E para um monte de gente. Por isso digo que ouvir apenas rádio ou a MTV (quando ela ainda era relevante), e de repente começar a gostar de uma bandinha “que ninguém conhece” é como descobrir um novo mundo.

Fiz este gigantesco nariz de cera para falar do Modest Mouse. O que sei sobre a banda é que eles são de Seattle (mesma terra do supracitado Nirvana, vejam só – mas é claro que disso vocês já sabem). Foi formada em 1993, inclusive. E que teve um tempo que o Johnny Marr, sim, aquele dos Smiths, tocou com a banda.

Do resto, tudo o que sei sobre a banda vem de seu disco mais famoso – Good News for People who Love Bad News. À primeira audição, muita coisa neste disco simplesmente não parece certa. Acho que foi o disco que mais me assustou na vida – no sentido de eu chegar e pensar “que merda eu fui comprar???”

A voz do cara é esganiçada… Ou sei lá. A impressão que dá é que cara poderia ser qualquer coisa, menos cantor. O baixo tem umas distorções estranhas e aparentemente deslocadas. A guitarra aparece em uns timbres esquisitos. É um disco desconfortável. Mas depois que você ultrapassa a barreira dos preconceitos, ele, como um patinho feio,  cresce e fica lindo (é só dar uma chance pra ele).

Eu comprei o disco em promoção, nos idos de 2004 ou 2005, depois de ler algo sobre ele. Fui assim, às cegas mesmo. As referências eram boas. Fiquei longos anos sem tocar nele. Até que, do nada, um amigo veio me falar dele – e aí eu resolvi ouvi-lo de novo. Isso faz um mês, mais ou menos. E ele ainda está na minha vitrola virtual.

O maior “hit” do disco é Float On. Que é boa pra cacete. Ao lado de Dance Hall, forma a ala “dançante” do disco. Em Dance Hall, aliás, o vocalista parece cantar possuído. E o maldito riff de guitarra gruda na sua cabeça por dias. A mesma coisa com a abertura de Bury me With.

Em Bukowsky, impossível não memorizar a parte da letra que diz “such an asshole”, declamada sob uma inicialmente estranha, mas espetacular combinação de violão, banjo, acordeão e contrabaixo acústico. Chique pra caralho.

World at Large, a música que realmente inaugura o disco – após uma faixa inicial de 10 segundos composta de metais distorcidos – é uma das canções mais lindas que já ouvi. Figura em meu top 30 de músicas preferidas em toda a história da humanidade, sem dúvida.

Mas, como algumas ostras escondem pérolas, e algumas delas brilham mais que outras, Good News… também tem a sua estrela. E ela se chama Ocean Breathes Salty. Se formos ver bem, ela é a mais “pop” do disco, a mais palatável. Guitarrinha ok, riff uniforme, estrutura de música com verso, verso, refrão, solo, refrão, encerramento.

A letra fala sobre relacionamentos e perdas. “Your body may be gone, I’m gonna carry you in. In my head, in my heart, in my soul. And maybe we’ll get lucky and we’ll both live again. Well I don’t know. I don’t know. I don’t know. Don’t think so”.

O mais legal da música é que, mesmo apesar do tom sóbrio, o vocalista canta como se estivesse zoando. Mas há um determinado momento em que o andamento sobe um tom, e a coisa fica séria. Até a voz do cara muda. É quando ele canta: “The more we move ahead the more we’re stuck in rewind. Well I don’t mind. I don’t mind. How the hell could I mind?”

Saquem o clipe (muito foda também)

Good News… pode não mudar a vida de ninguém. Mas também pode ser que mude – na pior das hipóteses, vai te oferecer uma nova perspectiva musical. Dê uma chance a ele. Mal não vai fazer, eu garanto.

Até mais, pessoal!

A forma mudou o conteúdo

cds

Quando eu era mais novo – não muito mais novo, só um pouco -, para ouvir música havia três caminhos:

  • O rádio
  • Pegar o CD/vinil emprestado do amigo (e gravar uma fita)
  • Comprar um disco

A terceira possibilidade era a melhor, mas era difícil (pelo menos para mim) comprar discos. Era caro e, mesmo que houvesse dinheiro, era preciso ENCONTRAR o bendito – o que poderia se tornar uma verdadeira odisseia em cidades do interior, como a minha.

Diante de todo o esforço envolvido, para comprar um disco era preciso ter muita certeza de que aquele negócio era bom mesmo. Funcionava mais ou menos assim: você ouvia determinada música (no rádio, na casa do colega, nas aulas de inglês). Ou ouvia a indicação de alguém. Ia atrás do disco. Conseguia comprar.

E aí, meu amigo, você acabava SE OBRIGANDO a gostar daquela bosta. Afinal, você economizou dois meses de sua mesada, ficou sem levar sua paquera (~paquera~ kkkk, quem hoje em dia fala “paquera”?) no cinema e pegou o busão só pra ir na loja que ficava no bairro universitário da cidade. O disco TINHA QUE SER bom.

Vou dar um exemplo: Raoul and the Kings of Spain, do Tears for Fears. É um disco de 1993 da banda, que já estava fazendo hora extra depois do sucesso nos anos 80. Eu gostava muito do “Best of” deles, aquele do sol na capa, e pedi esse em um amigo secreto do meu curso de computação (?) – eu aproveitava qualquer oportunidade para ganhar discos.

O problema é que ele é bem ruim. Emplacou um hit na MTV na época – Falling Down -, e só. No fundo, eu sabia disso. Mas, o que eu ia fazer? Jogar aquilo fora? De jeito nenhum! E aí ouvia aquelas lamúrias tentando achar qualquer característica para justificar a qualidade fictícia do disco para que eu continuasse me enganando (para ser bem justo com os caras, o álbum tem pelo menos uma música muito boa – God’s Mistake, ouve aí).

E isso aconteceu com muitas e muitas bandas. A gente comprava o disco por causa de uma música, conhecia outras e aprendia a gostar delas. E do próximo disco do mesmo artista também. E do próximo. E do próximo… Ouvir música era mais ou menos como comer aquelas pipocas no saquinho cor-de-rosa: a gente experimentava uma ou duas bem doces e crocantes, e tinha que comer o saco todo, mesmo que a maioria delas fossem murchas e amargas.

Quando a internet surgiu – e o Napster, para ser mais específico -, um novo mundo se abriu, literalmente. Foi como dar óculos para uma geração inteira de Miguilins, que até então não sabiam o que era enxergar de verdade. Eu lembro até hoje do dia que abri aquele negócio e digitei “Radiohead”. Apareceu uns nomes de música que eu nem sabia que eram da banda, umas versões “live”, “acoustic”. Eu cliquei pra baixar tudo freneticamente – para só depois descobrir que um download demorava, e demorava muito.

Mesmo assim, foi uma maravilha. Aí, tinha aquela conversa: “ah, eu baixo os discos mas se ele for bom eu compro na loja”. Pffff… até parece. O tanto de disco que eu deixei de comprar porque baixei… Isso já mudou bastante o processo que eu descrevi no passado: a gente baixava os discos, e se não gostasse, era só deletar. Melhor ainda: nem precisava baixar o disco inteiro! Só a música que você gostava.

O hábito de gravar fitas K7 evoluiu para a gravação dos CDs. E taca-le pau no Nero Burning Room! Era demais. Depois vieram outros softwares (que saudade do Audiogalaxy!), e embora adquirir música estivesse muito mais fácil, também havia um problema. Dois, na verdade: um é que ainda era necessário espaço para armazenar tudo. Paradoxalmente, quanto mais fácil era ouvir música, mais difícil era para guardar tudo: hajam HD externo e CDs gravados com toneladas e toneladas de mp3…

Outro problema é que era um processo totalmente injusto para o artista. Pirataria das bravas mesmo. Não vou fazer discurso purista não, mas… era sacanagem.

Enfim.

Agora, estamos na era do streaming, que resolve parte dos dois problemas. O espaço vai até onde permite o limite de dados de sua operadora. Mesmo assim, as plataformas que oferecem o serviço permitem que você “baixe” as músicas com wi-fi para ouvir mais tarde em modo off-line. E há uma remuneração aos artistas, embora a maioria ainda reclame das cifras envolvidas. De qualquer forma, é algo bem melhor que antes. Finalmente, evoluímos na questão de forma a agradar um pouco mais os dois lados da moeda – produtores e consumidores.

No entanto, a música é mais descartável como nunca. Se antes ela ocupava um espaço na sua prateleira, e depois no seu HD, agora, ela não ocupa espaço algum. Você ouve uma canção e, se ela não te “pegar”, é pouco provável que vá ouvi-la novamente. A gente não é mais obrigado a gostar de nada: agora, só gostamos do que realmente gostamos. Isso acaba provocando a supervalorização de alguns lançamentos, com esforços absurdos de marketing, para que a gente continue sendo obrigado a gostar daquilo, mas de uma forma diferente. Mas isso é assunto para outro texto.

Hoje mesmo, pus para tocar aquele “Descobertas da semana” no Spotify – uma seleção que o algorítimo faz com base nos artistas que você gosta, e que supostamente se enquadram no seu gosto. Tinham umas coisas ali que eu já conhecia, outras que não, mas todas passaram batido. Fazendo fundo sonoro enquanto eu fazia algumas coisas no computador. E só.

O que também é paradoxal é que justamente quando temos o mundo da música nas mãos, ficamos cada vez mais recolhidos ao nosso “porto seguro musical”. Pelo menos para mim, ter a possibilidade de ouvir QUALQUER artista entre TODOS que existem no mundo gera uma ansiedade danada. Aí, enquanto tento ouvir alguma novidade, fico pensando “putz, mas aquela banda que eu ouço desde 1990 é tão melhor” ou então “esse refrão me lembra aquele hit de 1996”, e acabo correndo de volta pra lá.

Há, ainda, artistas que nem discos inteiros têm: você procura e o cara tem uma, duas músicas. Será que vão lançar álbuns inteiros algum dia? Será que compensa? De qualquer forma, não é ele que vai decidir, é a indústria. E, para ela, parece que o conceito de disco está se dissolvendo, fadado a desaparecer por completo em poucos anos.

“Ah, mas estão produzindo até vinil de novo”, vocês podem dizer. OK, justo. Mas é uma fatia ínfima perto do mercado global do setor. E quanto tempo mais isso vai durar? A demanda vai continuar a crescer?

A música continua sendo música. Mas a forma como a consumimos está modificando o modo como a compreendemos. Se isso é prejudicial ou benéfico, não dá para saber. Pode ser que, futuramente, a fragmentação mate a indústria. Mas também pode ser que crie uma grande “democracia musical”, fortalecendo ainda mais o mercado. É ver – ops, ouvir – para crer.

Titãs – Acústico MTV

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“Quem aqui já ficou sozinho? Quem aqui sabe o que é ficar sozinho?”

“Eu moro sozinho!” (risos)

“Tadinho… Lima, faz alguma coisa pelo garoto, fazendo o favor”

(silêncio)

Esse silêncio não era pra existir. Trata-se de um trecho de “Diversão”, na versão do Acústico MTV dos Titãs, em que Paulo Miklos conversa com a plateia. É que eu tinha uma fita cassete, e de tanto voltar e colocar play justamente nessa parte, uma vez eu acabei apertando o “rec” por acidente (isso acontecia muito no meu tempo) e ficou um espaço em branco bem na hora que o Liminha faz aqueles negócios foda com o violão (foi o que fez eu ter a real vontade de aprender a tocar violão. Eu até que aprendi, mas é claro que até hoje não consigo fazer aquilo). A música voltava um pouco depois, no meio dos arranjos. E é desse jeito que eu me lembro, até hoje, dessa parte da canção.

Eu devia ter uns 17 anos, e precisei emprestar de novo o CD de uma amiga da escola pra gravar tudo de novo. Eu ouvia muito essa fita. Já tinha dinheiro suficiente, mas nunca comprei o CD – até hoje, inclusive, e isso é bem inexplicável.

Porque, meus amigos, o fato inevitável que todos devemos encarar é o seguinte: o Acústico dos Titãs é um dos grandes discos do rock nacional. Talvez o melhor feito sobre uma gravação ao vivo. E certamente o mais importante da série de sucesso da MTV no Brasil.

É que naquela época eu estava entrando na faculdade, e era muito cool dizer que os Titãs eram uns vendidos para o sistema só porque venderam milhões de cópias. Chique mesmo era ser pobre e desconhecido (tipo o EmiciERROR). Mas a verdade é que eu nunca me separei dos Titãs – nessa época, ouvia o disco escondido no quarto e não falava pros meus amigos, mais ou menos como muita gente faz hoje com a Anitta – o quê??? Vão dizer que vocês não curtem Anitta?

É preciso entender: o ano era 1997, e os Titãs vinham de dois discos mal avaliados pelo público e pela crítica (“Tudo ao Mesmo Tempo Agora”, que é escatológico e lindo; e “Titanomaquia”, que é tido como oportunista por querer pegar carona no grunge, mas é o mais perto que já chegamos de fazer o verdadeiro rock and roll, sem frescuras, para as massas) e um mais ou menos (“Domingo”, pop e divertido, mas completamente irrelevante).

Então, veio o Acústico. Um disco cheio de sentido, lógica e contexto. Em uma época em que ainda valia a pena, para os artistas, gravar discos e fazer grandes lançamentos. E quando não havia internet, torrent, Youtube: tudo que a gente tinha de nossos artistas preferidos eram seus discos. Isso ou a sorte deles, um dia, escolherem sua cidade para fazer um show.

Muita coisa nunca mais foi igual depois do Acústico dos Titãs. O formato do acústico pegou de vez, a ponto de saturar alguns anos depois, mas uma coisa é curiosa: nem todos artistas que optaram pelo modelo para retomar suas carreiras falidas obtiveram sucesso – mais uma prova da qualidade do trabalho dos Titãs. Alguns discos, no entanto, são muito bons – vou citar Capital Inicial, Cássia Eller e Ira!. E, bem, os Titãs ganharam um fôlego que certamente não teriam sem o acústico. Mas o que veio daí pra frente é outra história.

A crítica pegou no pé porque, para muitos, o disco errou ao levar o rock para um lugar onde ele não deveria estar. Como se tivesse tirado o rock do gueto no qual ele deveria permanecer para sempre, causando assim, paradoxalmente, sua morte. Como o ser abissal brilhante e sedutor, mas que quando retirado de seu habitat não suporta poucos minutos de seu sucesso com os seres da superfície (que porra de analogia é essa?).

Sigamos.

Uma coisa legal do acústico dos Titãs é que ele é um disco até meio que médião, mas muito, muito, muito bem produzido. E arranjado. E com umas três ou quatro pérolas que seguram a obra toda nas costas.

O destaque

Clássicos como “Comida”, “O Pulso”, “Flores”, “Querem Meu Sangue” e “Televisão” ganharam ótimas versões, com excelentes participações especiais, e inéditas como “Não Vou Lutar” (a melhor entre as novidades, esqueça aquela bunda-molice dos cegos no castelo) e “Nem Cinco Minutos Guardados” são adoravelmente aprazíveis, mas nada, nada chega perto do que os Titãs fizeram com “Diversão”.

Caras! CARAS!!! C-A-R-A-S!!! Isso aqui não é brincadeira. Sempre gostei da versão original, mas nunca saquei a pegada down para uma música que prega os benefícios do ato de divertir-se. Soa como algo blasé e prepotente. Isso foi corrigido aqui, e com louvor. A música é a mesma, e ao mesmo tempo é outra. Grandiosa sem ser afetada. Épica sem ser pretensiosa. Os arranjos de metais e cordas (marcando, no refrão, a introdução da versão original) são impecáveis. E os violões… ah, os violões! Os violões são lindos. Dão o andamento, a harmonia, fazem a percussão. Aqui, eles realmente dão uma UTILIDADE para cada um dos três violões usados no disco, diferente do desejo natural de tocar tudo junto e misturado só pra fazer volume (como ocorre no megahit “Pra Dizer Adeus”, por exemplo, outra música transfigurada – para o bem). Paulo Miklos, o melhor vocalista da banda (quem discorda?) é a cereja do bolo desta obra, pra mim top 5 insubstituível quando se fala em releituras na música brasileira.

Ah… mas você discorda? OK, a vida é assim. Vamos em frente.

Até a próxima!

Por que estamos aqui?

Tem várias coisas legais sobre a música. O principal é que quase tudo que a envolve é completamente subjetivo – quer dizer, existem algumas coisas certas (como o fato do Nirvana ser bem melhor que o Pearl Jam) e erradas (como acreditar que Paul McCartney é o maior beatle), mas de resto é tudo muito relacionado à avaliação pessoal de cada um sobre seu cada qual.

Decidi fazer este blog aqui justamente por isso. Quer dizer, eu gosto bastante de música, e gosto bastante de ficar falando sobre música para amigos e para mim mesmo – fazendo resenhas imaginárias, críticas sobre solos de guitarra específicos e afins. Porque eu quase sempre acho que só eu gosto daquilo que estou ouvindo (quando, lógico, não é verdade; pelo menos a mãe do artista também gosta). Por que, então, não compartilhar?

Ah, sim: parece óbvio, mas aqui neste espaço você só vai encontrar pitacos sobre obras e artistas que eu gosto. Não vou ficar perdendo tempo com coisas que eu não curto, até porque… eu não curto. Não vou ter nada a dizer sobre. Do que eu gosto e conheço, eu vou rasgar seda, falar bem, pagar pau mesmo. São coisas que me inspiram, me alegram, me animam. OK?

Entra aí. Vai ficando à vontade.